Maternidade pública do Rio participa de projeto de colaboração internacional

Ao completar 5 anos de fundação, maternidade pública do Rio participa de projeto de colaboração internacional

Iniciativa conta com apoio da Fundação Bill & Melinda Gates, em parceria com o Ministério da Saúde

Um programa brasileiro voltado para redução da prematuridade é o mais novo beneficiado com o apoio da Fundação Bill & Melinda Gates. É o projeto Prepare – Redução da Prematuridade a partir de Cuidados na Pré-eclâmpsia, desenvolvido na Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda (MMABH), pertencente à rede municipal de saúde e que está completando cinco anos de fundação. Esta é uma das 21 iniciativas de pesquisa em saúde materno-infantil do programa Grandes Desafios Brasil, financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates e pelo Ministério da Saúde. De acordo com Wallace Mendes, diretor médico da MMABH, que é referência em parto humanizado na rede pública do município do Rio de Janeiro, “a Fundação Bill & Melinda Gates incentiva a busca por soluções para problemas de saúde globais”. Além do Brasil, Canadá, Índia, Noruega, África do Sul, Reino Unido e Estados Unidos também participam dos estudos.

Wallace Mendes, adianta que esse é um projeto de colaboração internacional entre investigadores brasileiros, liderados pelo médico e professor Marcos Augusto Bastos Dias, em parceria com o Instituto Fernandes Figueira/Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz) e outras instituições. “Já iniciamos a coleta de dados. No próximo mês começaremos uma nova fase, que é a intervenção. Nosso objetivo é testar um novo sistema integrado de cuidados à gestante”, revela Mendes.

De acordo com o diretor da MMABH, esse sistema promoverá a implementação de recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o manejo de pacientes com pré-eclâmpsia, condição gestacional que pode levar ao aumento da pressão arterial, inchaço – principalmente dos membros inferiores -, aumento exagerado do peso corporal e perda de proteína pela urina, afetando o fluxo de sangue para o bebê, o que prejudica seu crescimento. O problema pode levar ainda ao descolamento prematuro da placenta e a consequente hemorragia e, também, ao parto de urgência.

A estratégia a ser adotada no projeto é baseada na avaliação de risco desses eventos adversos, visando assim, reduzir a incidência de partos pré-termos, ou seja, antes de completadas as 37 semanas gestacionais. “Com essa medida, obstetras terão maior segurança para evitar a antecipação do parto de maneira desnecessária ao identificar pacientes de baixo risco para resultados adversos”, detalha o médico.

A pré-eclâmpsia se apresenta como grande causa de morbidade infantil, a curto e longo prazos. Segundo o médico, entre os principais efeitos provocados pela doença estão a asfixia, elevação do risco de doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes tipo 2 ao longo da vida.

A OMS disponibiliza protocolos baseados nas melhores evidências para o manejo da pré-eclâmpsia. As recomendações visam à profilaxia e a redução de sua incidência ou gravidade. Sabe-se que a única ‘cura’ para o problema é o parto, gerando muitas vezes a prematuridade iatrogênica (quando o bebê é retirado sem indicação, em mulheres com cesarianas agendadas ou avaliação incorreta da idade gestacional, o que significa que é o parto é realizado quando ele não está totalmente ‘pronto´para o nascimento). “Em todo o mundo, parte das pacientes é submetida à antecipação do parto desnecessariamente. Esse problema parece ser maior no Brasil, pois a estimativa é de que 18% dos casos de prematuridade são relacionados à pré-eclâmpsia, comparados com 8% em países desenvolvidos”, diz Mendes com base em estudos.

Para reverter esse quadro, além da MMABH e o IFF/Fiocruz, outros 6 centros e 23 unidades básicas de saúde do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará e Pernambuco estão envolvidos no projeto.

A pesquisa

O diretor médico da MMABH revela que uma série de ações será realizada para evitar o parto prematuro em mulheres com pré-eclâmpsia. “As ações serão educativas e voltadas para os médicos e enfermeiros envolvidos no pré-natal, bem como no manejo clínico depois da doença estabelecida, ou seja, quando a paciente já está internada. A prescrição do ácido acetil salicílico (AAS) em baixas doses e o aumento da ingestão diária de cálcio para gestantes com fatores de risco pode evitar casos de pré-eclâmpsia. No entanto, percebe-se que essa realidade nem sempre está presente”, lamenta.

Wallace Mendes adianta que duas estratégias serão adotadas na Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda para evitar a pré-eclâmpsia: “quando a grávida der entrada na maternidade vamos verificar a dosagem de dois biomarcadores, o PlGF e o sFlT-1, que alertam para a necessidade de maior vigilância. Se a probabilidade de complicações calculada pelo Full Piers for baixa (essa medição indica a probabilidade de risco de eventos adversos), pode-se esperar, evitando interrupção de gravidez precocemente. A ideia é postergar ao máximo a realização do parto, desde que monitorado pelo protocolo, o que é melhor para a gestante e também para a criança”.

O diretor da MMABH observa que o maior e mais importante desafio será mudar o comportamento dos profissionais de saúde envolvidos quanto à implementeação das recomendações da OMS e postergação do parto.

O projeto Prepare – Redução da Prematuridade a Partir de Cuidados na Pré-eclâmpsia, que tem duração de 48 meses, prevê ainda coleta de material com amostras de sangue e urina, que serão encaminhados para um biobanco e, posteriormente, servirão para estudos futuros.

Do Brasil para o mundo

Em fevereiro de 2016, Wallace Mendes participou do Grand Challenges Africa Community Meeting 2016, em Nairóbi, na África, apresentando o Prepare – Redução da Prematuridade a Partir de Cuidados na Pré-eclâmpsia. O Grand Challenges Africa Community Meeting 2016 é um encontro que reúne projetos subsidiados pela Fundação Bill & Melinda Gates.

Em 2015, outro trabalho científico sobre estratégias de redução da taxa de episiotomia (uma incisão efetuada na região do períneo entre a vagina e o ânus para ampliar o canal de parto) foi apresentado no XXI Congresso Mundial da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia, no Canadá. O estudo, realizado entre maio de 2012 e abril de 2014, mostrou que, em menos de 9% dos partos realizados na maternidade houve o uso desse procedimento. O índice está dentro do que a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera uma boa referência, que é o uso da técnica em cerca de 10% dos partos.

 

Nathália Vincentis – Jornalismo – www.sbcomunicacao.com.br

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